| Laurel e Hardy vão para o céu |
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[Junho 2009 - Agosto 2009]
Sinopse
Não conhecem a finalidade da obra. Não conhecem o mandante da obra. Estão sós num espaço inóspito e desconhecido, tendo por guia apenas um livro de instruções que procuram seguir à risca, receando ser castigados. Conseguirão concluir a tarefa? Laurel e Hardy vão para o céu é uma de três peças de teatro escritas por Paul Auster nos anos 70, num tempo em que o agora famoso romancista lutava para sobreviver dos parcos rendimentos obtidos com a actividade como escritor profissional. A estreia – um retumbante fracasso, segundo o próprio autor – teve lugar em 1977, num estúdio da Rua 69 em Nova Iorque, onde sete anos antes Mark Rothko, o artista plástico, se suicidara. Laurel e Hardy vão para o céu é uma comédia amarga sobre a perda de identidade do homem contemporâneo face ao mundo globalizado e desumanizado que o rodeia, que carrega a forte influência, por um lado, de À espera de Godot, de Samuel Beckett e, por outro, das comédias burlescas de Stan Laurel e Oliver Hardy – conhecidos em Portugal como Bucha e Estica –, que marcaram Hollywood nos anos 30. Trailer Assista a um excerto do espectáculo (gravado no Centro Cultural Olga de Cadaval). Fotos de Cena Fotógrafo: Nuno Morais Fotos de Cena Fotógrafo: Paulo Escoto Ficha Técnica e Artística:
Acerca de "Laurel e Hardy vão para o céu" I – O Autor Paul Benjamin Auster, nascido em Newark, a 3 de Fevereiro de 1947, é um escritor norte-americano, autor de vários best-sellers como Timbuktu, O Livro das Ilusões, A Noite do Oráculo e A Música do Acaso. Actualmente vive em Brooklyn, Nova Iorque. Frequentou a Universidade de Columbia e viveu durante quatro anos em França. A sua proximidade à literatura francesa haveria de marcá-lo para sempre. Foi confesso admirador de André Breton, Paul Éluard, Stéphane Mallarmé, Sartre e Blanchot, alguns dos quais traduziu para língua inglesa. O seu gosto pela tradução é muitas vezes referido pelo próprio, que aconselha os jovens escritores a traduzir poesia para entenderem melhor o significado intrínseco das palavras. Além destes autores, Paul Auster refere ainda como suas influências Dostoiévsky, Ernest Hemingway, Fitzgerald, Faulkner, Kafka, Hodërlin, Samuel Beckett e Marcel Proust. Nos seus livros é evidente a influência cinematográfica norte-americana e as suas histórias desenrolam-se numa sucessão que faz lembrar um thriller, usando igualmente o método da "caixa chinesa", sucessão de histórias no interior umas das outras. Na sua obra, as personagens encontram-se amiúde presas em estranhos mundos, desempenhando os seus papéis sobre o manto de um subtexto existencialista. A influência do universo surrealista de Samuel Beckett é notória, por exemplo, em A Música do Acaso e Mr. Vertigo. Em 1998 realizaria o seu primeiro filme, Lulu on the Bridge. Escrevera, em 1995, o guião para Smoke e, mais tarde, co-realizaria Blue Face com Wayne Wang, Já em 2006 realizou A Vida Interior de Martin Frost, rodado em Portugal. Paul Auster é um autor que, tanto no seu trabalho ficcional como não-ficcional, reinveste de sentido o romantismo, o acaso e a magia do quotidiano. Auster consegue-o não através de enredos fantasiosos, mas antes chamando a atenção para o significado oculto de acasos e coincidências que nos acontecem a todos no dia-a-dia – se olharmos as coisas sob uma nova luz, a nossas vidas transformam-se em filmes. Auster coloca o projector em funcionamento. II – A Obra Laurel e Hardy vão para o céu foi publicado como parte integrante da autobiografia Da Mão para a Boca (ed. Portuguesa: Edições Asa, 1997), em que Paul Auster descreve os seus anos como escritor em luta para sobreviver aos enormes problemas financeiros que o assolavam, num período em que, afirma o autor, tudo o que tocava conhecia a ruína. “O meu casamento terminou com um divórcio”, escreve, “o meu trabalho afundava-se e eu estava afogado em problemas financeiros” – “uma constante e sufocante falta de dinheiro que envenenava a minha alma e me trazia num estado de interminável pânico”. Ainda que Paul Auster seja hoje um autor sobejamente conhecido, por volta dos seus 30 anos, então um desconhecido, passou grandes dificuldades económicas. Assim, aceitou os mais estranhos empregos – foi marinheiro num petroleiro – e escreveu como “mercenário” para catálogos de antiquários e produtores de cinema de segunda categoria. Tentou vender um jogo de cartas de baseball que havia criado na infância, escreveu um policial à maneira das colecções de “livros de aeroporto” que pretendia ver publicado sob pseudónimo e, finalmente, escreveu três peças de teatro, de que apenas uma conheceu uma estreia – por sinal, desastrosa. Esta peça – Laurel e Hardy vão para o céu –, mais tarde revista e corrigida pelo autor –, a qual denota influências de À espera de Godot, de Samuel Beckett, antecipa um conjunto de temas que vão ser recorrentes na obra de Paul Auster: o acaso, o carácter incerto da identidade e a incerteza da verdade. Em A Trilogia de Nova Iorque, o autor utiliza o formato das histórias de detectives para tratar temas caros do existencialismo, questões como a identidade, o espaço, a linguagem e a literatura, criando romances que a crítica apelidou de pós-modernos. O papel que o acaso e a coincidência têm na busca pela identidade e pelo significado pessoal para a vida quotidiana assombram A Música do Acaso e as relações entre pares e o seu contexto – em que os “heróis” são forçados a participar, com ou sem conhecimento, dos esquemas de terceiros – são o cerne de O Livro das Ilusões. Central a toda a sua obra é a questão de linguagem. Com Lacan, Auster pensa que a linguagem é a porta de entrada dos homens no mundo – mas, em simultâneo, é a ordem simbólica da civilização que afasta o homem da ordem natural do mundo. Só o caminhar em direcção à natureza pode trazer ao homem a felicidade. III – Laurel e Jardy vão para o céu Laurel e Hardy vão para o céu é um texto escrito por Paul Auster no final de 1976 e entendido pelo autor como mero exercício de escrita: “Não me passara pela cabeça representá-las ou publicá-las. Para mim, pouco mais eram do que exercícios parcos, minimalistas, uma tentativa inicial para qualquer coisa que podia ou não tornar-se realidade” (Da Mão para a Boca, pág. 124). No entanto, o texto viria mesmo a conhecer uma encenação, logo em 1977, por John Bernard Meyers para o Artists Theatre – o “Off Off Broadway” nova-iorquino. A estreia nova-iorquina foi um desastre assolado por um encenador incompetente, maus actores, falta de dinheiro e um texto deficiente: “Antes de remeter toda a desgraçada experiência para o esquecimento, sentei-me e voltei a trabalhar na peça. Os desempenhos tinham sido apenas uma parte do problema e eu não ia sacudir a responsabilidade do que acontecera e atribuí-la ao director ou aos actores. Percebi que a peça era demasiado longa, desconexa e difusa, e que se impunha uma cirurgia radical para a corrigir. Comecei a podar e a aparar, a cortar tudo quanto me parecia fraco ou supérfluo; quando cheguei ao fim, havia amputado metade da peça, eliminado um das personagens e mudado o título. Passei à máquina a nova versão, agora chamada Laurel e Hardy vão para o céu, metia-a numa pasta com as duas outras peças que escrevera e guardei a pasta numa das gavetas da secretária. A minha intenção era deixá-las ficar lá e nunca mais olhar para dentro da gaveta” (Da Mão para a Boca, pág. 128) Em Laurel e Hardy vão para o céu, dois homens constroem um muro com enormes e pesadas pedras. Não conhecem a finalidade da obra. Não conhecem o mandante da obra. Estão sós num espaço inóspito e desconhecido, tendo por guia, unicamente, um livro de instruções, que procuram seguir à risca, receando um qualquer castigo de um observador oculto. Conseguirão concluir a tarefa? A construção do muro é uma oportunidade para se conhecerem e para se reinventarem – e assim encontrarem um lugar para si próprios, dando sentido à sua existência. A peça é trespassada por duas questões ou inquietações: o carácter incerto da identidade e o espectro do fracasso. A identidade dos personagens – Laurel e Hardy – está comprometida. Em última instância, o problema reside na linguagem e na sua ineficiência no que diz respeito à comunicação interpessoal. Assim, qualquer relação, bem como o conceito mais alargado de comunidade, é impossível, pelo que os personagens estão irremediavelmente isolados, fechados nos seus “pequenos quartos estanques”. Incapazes de se relacionar, os personagens falham na sua própria identificação. Isto é claro a dado passo do texto: Hardy – (Tocando a face de Laurel.) És tu? Laurel – Sim, sou eu. (Pausa.) Acho que sou. (Duvidando, toca na sua face.) Sou eu?" Este primeiro fracasso que assombra as personagens não é prenúncio de um “final infeliz” – por oposição aos “finais felizes” holywoodescos. O fracasso proporciona aos personagens uma nova oportunidade: tendo reduzido as suas identidades e as suas vidas ao mínimo, os personagens ganham nova força para recomeçar uma nova vida, em contacto com o seu contexto – uma vida mais real. Assim, Laurel e Hardy vão para o céu é uma metáfora para o sentimento de perda que o homem contemporâneo sente face a um mundo que se globalizou e que o ultrapassa em dimensão e complexidade, face a um ambiente hostil e desumanizado que impossibilita a comunicação com os seus semelhantes. As pedras e construção do muro são uma metáfora do trabalho extenuante da escrita, da difícil tarefa de arrumar as palavras – mas também uma metáfora do difícil trabalho de (re)construção da identidade, das relações interpessoais, de um mundo melhor. É este subtexto pleno de um humanismo lúcido que torna a peça tão actual e a sua apresentação ao público um imperativo que a Utopia Teatro coloca a si mesma. |
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