| Renaissance |
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[Fevereiro 2007 - Março 2007]
Um espectáculo visualmente expressionista com personagens em registo naturalista, procurando um efeito patético; de arquitectura renascentista com nuances simbolistas e espírito rococó; construção de personagem à Stanislavsky e desenho de luzes à Bob Wilson. Um espectáculo feminista-demodée sobre maldades, mentiras, fealdade e redenção. Um espectáculo que põe em diálogo seis mulheres, duas épocas, dois planos, duas interpretações.
Joga-se ora o século XVI ora o XXI.
Joga-se a transposição para teatro comercial de uma investigação histórica académica. Joga-se a vivência de seis mulheres no espaço de um teatro em luta pela suposta verdade de três personagens. Joga-se a experiência absurda de um morto no Iraque a ladear três outros fantasmas históricos. Se já está confundido... bem vindo à nossa Era Híbrida, bem vindo a Renaissance! Sinopse: Verónica, Violeta e Amparo são três investigadoras universitárias que apresentam, numa concorrida vernissage, os resultados do seu estudo “O Renascimento Português no Feminino em Sintra”. O sucesso editorial é ensombrado pela morte, no Iraque, de André Magalhães: filho de Violeta e marido de Verónica.
Ângela, Augusta e Bernarda são três actrizes em rápida ascensão que são contratadas para interpretar Luísa Sigeia, Paula Vicente e a Infanta D. Maria numa polémica adaptação ao teatro – com elevada viabilidade económica assegurada por um estudo de mercado – do estudo das investigadoras, projecto que é recebido com frontal oposição por Violeta.
O choque entre as seis mulheres é inevitável. O choque entre séc. XVI e séc. XXI é inevitável. Sucedem-se as confissões e as revelações, até ao clímax num karaoke-bar para lésbicas da noite lisboeta, na noite após a estreia do espectáculo. Mas resta ainda conhecer o paradeiro do corpo de André Magalhães... Ficha Técnica e Artística:
![]() ![]() Renaissance e 10 anos de Utopia Teatro a palavra ao autor Fim de três canetas. Cair do pano. Renaissance. Escrita. Terminada. Convalescença. Cada vez é mais duro terminar uma peça.
Ainda estou muito próximo, apesar do corte umbilical. Preciso esquecer. E depois (re)descobrir e contextualizar. Mas posso adiantar algumas marcas.
Sinto-a em directa correspondência e íntimo diálogo com Fin-de-Siécle (1998). A linha começa por ser intencional. Desejei que a Renaissance correspondesse um regressar íntimo à estrutura dramática depois de outras experiências estéticas ao longo destes dez anos. Fin-de-Siécle, em 1998, foi a minha minha primeira experiência teatral onde assumi toda a herança e inspiração da obra de Tennessee Williams. Outra marca intencional é o avançar do segredo de uma mulher presa num bar na passagem de ano de 1899 para 1900 para os segredos de seis mulheres presas à lógica da Sociedade Global do início do século XXI, buscando sempre, em primeiro lugar, um olhar feminino, com a sua maior capacidade de abertura e interpretação de sinais. Outra marca intencional é o espaço concentracionário e a proximidade excessiva com o público – constante nos trabalhos da Utopia Teatro. O bar de Fin-de-Siécle era a antiga cadeia, gelada e abandonada. Os quartos escuros de Renaissance são caixas-negras que aprisionam as personagens às cadeias das cadeiras. Em Fin-de-Siécle, o público assistia ao drama em café-concerto com bebidas a pagar e velas nas mesas. Em Renaissance as personagens conversam ao telemóvel sentadas no meio do público e tudo se inicia na "vernissage" com copos e champanhe a circular pela plateia. Outra semelhança, esta não intencional, encontra-se no momento tido por clímax, precipitando a catarse: em Fin-de-Siécle ocorria quando Sara Silvestre rodopiava as palavras da sua confissão invocando a dança sagrada dos "derviches". Em Renaissance deparamo-nos com um momento à Almodôvar num "show" de canto, dança e confissões, com as seis mulheres ébrias em final de noite num Karaoke-Bar de lésbicas. Outra semelhança não intencional: a presença do Próximo Oriente como elemento catalizador/destabilizador. No primeiro espectáculo, Constantinopla (Istambul) era o local onde Sara Silvestre descobria o lado negro do seu marido. No segundo caso, o Iraque é o Inferno aberto na Terra onde morreu o filho de Violeta. Sempre o mesmo questionar sobre o Outro, sobre o Outro Lado, o Próximo Oriente dentro de nós. Em impossível resumo, Renaissance é o regresso à primeira estrutura dramática; é o regresso à fonte de inspiração primeira; é regresso ao universo íntimo das mulheres de que me sinto privilegiado confessor; é o regresso à costela cristã, à mesma crença no arrependimento e transcendência das personagens, do Teatro, da Vida. Mas, neste mergulho interior, não me detenho somente nas seis personagens femininas. Pela primeira vez em obra minha surge o elemento estranho, destabilizador: a guerra. Pela primeira vez, as primeiras reflexões sobre guerra e terrorismo, estado clínico da Nação e estado clínico da Humanidade. Tudo a partir da morte do filho de Violeta no Iraque. Tudo a partir da anunciada morte de D. Sebastião em Alcácer-Quibir. Sublinho: não são afirmações, não são teses, são apenas as primeiras reflexões sobre as primeiras impressões da guerra sob a minha pele. Um primeiro questionar sobre o sentido da defesa da(s) verdade(s) como fruto de morte e não da união. Enfim, faço minhas as últimas palavras de Violeta: “É já manhã. Um brinde aos quartos escuros... e à porta que os abre à claridade! Renasceremos. Renasceremos sempre.” Nuno Vicente 15/01/2007 Albarraque Renaissance visto por Miguel Real e Filomena Oliveira
Renaissance, peça pós-modernista de Nuno Vicente, levada à cena na Casa do Teatro de Sintra pelo grupo Utopia Teatro, findou a sua carreira na passada semana [18 de Março de 2007].
Pondo em cena seis mulheres, dois tempos históricos diferentes, duas perspectivas sobre o movimento feminino e dois modos diferentes de interpretação, Nuno Vicente explora uma actual vertente da arte da dramaturgia e da representação - o pós-modernismo -, que justamente intercepciona no espectáculo textos, tempos, temas, espaços e personalidades num puzzle que a mente do espectador reconstrói, criando uma pluralidade de sentidos para a peça. É o que acontece com Renaissance, onde sucessivamente assistimos à representação histórica de um drama, de carácter naturalista e realista, centrada em torno da possibilidade do lesbicismo de Luísa Sigeia e Paula Vicente na corte da Infanta D. Maria (filha de D. Manuel I); depois a uma representação expressionista, animada por imagens de um vídeo sobre a guerra do Iraque e o permanente lamento de uma mãe a quem morreu o filho nessa guerra; logo seguido de um vídeo didáctico sobre a personalidade e o ambiente cultural da corte da Infanta, acrescido da denúncia (Rui Braz e Nuno Vicente nos únicos papéis masculinos da peça), ainda em imagem-vídeo, das perversões do mercado económico face às boas intenções intelectuais de três investigadoras sobre o movimento feminino; novo vídeo - de timbre simbólico e de grande beleza estética - evidencia esfumadamente imagens eróticas; nova cena expressionista denunciadora da violência doméstica; finalmente, reconciliadas as investigadoras e as actrizes, reconciliada a mãe com a imagem bélica e maquiavélica do filho morto, rompido o dique da censura masculina, libertada a pulsão libidinal feminina, a peça acaba num bar numa ruidosa festa entre as seis mulheres, de cunho patético-romântico, com imitações kitsch de canções pimba.
Marca pessoal do Nuno Vicente, que escreveu o texto e encenou a peça, com vídeo de Francisco Gomes, sonoplastia de Rui Braz e desenho de luz de André Rabaça, Renaissance evidencia-se como um jogo estético, dirigido pela ideia da proeminência dos valores femininos (ideia muito cara a António Alçada Baptista, Natália Correia e Maria Teresa Horta), em que, como um rio enchendo-se com o caudal do seus afluentes, um conjunto de questões paralelas vão engrossando a intriga dramática, seja como recursos dramatúrgicos (o karaoke, o grito permanentemente anunciado de Carla Dias, as lanterninhas iluminantes, o telemóvel…), seja como tema a denunciar (a perversão do mercado económico, a violência doméstica, a intriga feminina, a guerra do Iraque…). Harmonizar a totalidade destes recursos e temas numa tensão dramática unificada de índole vincadamente estética, pondo o espectador ora a chorar, ora a rir, ora a assentir, ora a revoltar-se, constitui o milagre das peças do Nuno Vicente.
As seis actrizes - Carla Trindade, Carla Dias, Cláudia Faria, Rosália Maça, Sandra Canelas e Raquel Ferreira - evidenciam com subtileza registos diversos, do dramático ao jocoso, do intimista ao expressionista, complementadas por um registo musical omnipresente e deveras actuante. No conjunto, Nuno, Rui Braz e a Utopia conseguem o eterno o milagre de transformar as situações mais pungentes e dramáticas (a guerra, a violência doméstica…) numa genuína festa do teatro que, não abdicando do seu poder satirizador e denunciador, só se realiza quando envolve o espectador numa forte sensação estética.
Foi o que sentimos como espectadores de Renaissance. Parabéns. Filomena Oliveira/Luís Martins
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