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Renaissance, peça pós-modernista de Nuno Vicente, levada à cena na Casa do Teatro de Sintra pelo grupo Utopia Teatro, findou a sua carreira na passada semana [18 de Março de 2007].
Pondo em cena seis mulheres, dois tempos históricos diferentes, duas perspectivas sobre o movimento feminino e dois modos diferentes de interpretação, Nuno Vicente explora uma actual vertente da arte da dramaturgia e da representação - o pós-modernismo -, que justamente intercepciona no espectáculo textos, tempos, temas, espaços e personalidades num puzzle que a mente do espectador reconstrói, criando uma pluralidade de sentidos para a peça. É o que acontece com Renaissance, onde sucessivamente assistimos à representação histórica de um drama, de carácter naturalista e realista, centrada em torno da possibilidade do lesbicismo de Luísa Sigeia e Paula Vicente na corte da Infanta D. Maria (filha de D. Manuel I); depois a uma representação expressionista, animada por imagens de um vídeo sobre a guerra do Iraque e o permanente lamento de uma mãe a quem morreu o filho nessa guerra; logo seguido de um vídeo didáctico sobre a personalidade e o ambiente cultural da corte da Infanta, acrescido da denúncia (Rui Braz e Nuno Vicente nos únicos papéis masculinos da peça), ainda em imagem-vídeo, das perversões do mercado económico face às boas intenções intelectuais de três investigadoras sobre o movimento feminino; novo vídeo - de timbre simbólico e de grande beleza estética - evidencia esfumadamente imagens eróticas; nova cena expressionista denunciadora da violência doméstica; finalmente, reconciliadas as investigadoras e as actrizes, reconciliada a mãe com a imagem bélica e maquiavélica do filho morto, rompido o dique da censura masculina, libertada a pulsão libidinal feminina, a peça acaba num bar numa ruidosa festa entre as seis mulheres, de cunho patético-romântico, com imitações kitsch de canções pimba.
Marca pessoal do Nuno Vicente, que escreveu o texto e encenou a peça, com vídeo de Francisco Gomes, sonoplastia de Rui Braz e desenho de luz de André Rabaça, Renaissance evidencia-se como um jogo estético, dirigido pela ideia da proeminência dos valores femininos (ideia muito cara a António Alçada Baptista, Natália Correia e Maria Teresa Horta), em que, como um rio enchendo-se com o caudal do seus afluentes, um conjunto de questões paralelas vão engrossando a intriga dramática, seja como recursos dramatúrgicos (o karaoke, o grito permanentemente anunciado de Carla Dias, as lanterninhas iluminantes, o telemóvel…), seja como tema a denunciar (a perversão do mercado económico, a violência doméstica, a intriga feminina, a guerra do Iraque…). Harmonizar a totalidade destes recursos e temas numa tensão dramática unificada de índole vincadamente estética, pondo o espectador ora a chorar, ora a rir, ora a assentir, ora a revoltar-se, constitui o milagre das peças do Nuno Vicente.
As seis actrizes - Carla Trindade, Carla Dias, Cláudia Faria, Rosália Maça, Sandra Canelas e Raquel Ferreira - evidenciam com subtileza registos diversos, do dramático ao jocoso, do intimista ao expressionista, complementadas por um registo musical omnipresente e deveras actuante. No conjunto, Nuno, Rui Braz e a Utopia conseguem o eterno o milagre de transformar as situações mais pungentes e dramáticas (a guerra, a violência doméstica…) numa genuína festa do teatro que, não abdicando do seu poder satirizador e denunciador, só se realiza quando envolve o espectador numa forte sensação estética.
Foi o que sentimos como espectadores de Renaissance. Parabéns. Filomena Oliveira/Luís Martins
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