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Renaissance
Renaissance e 10 anos de Utopia Teatro
Renaissance visto por Miguel Real e Filomena Oliveira
Renaissance e 10 anos de Utopia Teatro
a palavra ao autor

Fim de três canetas. Cair do pano. Renaissance. Escrita. Terminada. Convalescença. Cada vez é mais duro terminar uma peça.

Ainda estou muito próximo, apesar do corte umbilical. Preciso esquecer. E depois (re)descobrir e contextualizar. Mas posso adiantar algumas marcas.

foto de Nuno Vicente
Nuno Vicente
É de todas as 18 peças escritas a mais arquitectada. A sua estrutura formal é o Teatro Renascentista mais equilibrado.

Sinto-a em directa correspondência e íntimo diálogo com Fin-de-Siécle (1998). A linha começa por ser intencional. Desejei que a Renaissance correspondesse um regressar íntimo à estrutura dramática depois de outras experiências estéticas ao longo destes dez anos. Fin-de-Siécle, em 1998, foi a minha minha primeira experiência teatral onde assumi toda a herança e inspiração da obra de Tennessee Williams.

Outra marca intencional é o avançar do segredo de uma mulher presa num bar na passagem de ano de 1899 para 1900 para os segredos de seis mulheres presas à lógica da Sociedade Global do início do século XXI, buscando sempre, em primeiro lugar, um olhar feminino, com a sua maior capacidade de abertura e interpretação de sinais.

Outra marca intencional é o espaço concentracionário e a proximidade excessiva com o público – constante nos trabalhos da Utopia Teatro.

O bar de Fin-de-Siécle era a antiga cadeia, gelada e abandonada. Os quartos escuros de Renaissance são caixas-negras que aprisionam as personagens às cadeias das cadeiras. Em Fin-de-Siécle, o público assistia ao drama em café-concerto com bebidas a pagar e velas nas mesas. Em Renaissance as personagens conversam ao telemóvel sentadas no meio do público e tudo se inicia na "vernissage" com copos e champanhe a circular pela plateia.

Outra semelhança, esta não intencional, encontra-se no momento tido por clímax, precipitando a catarse: em Fin-de-Siécle ocorria quando Sara Silvestre rodopiava as palavras da sua confissão invocando a dança sagrada dos "derviches". Em Renaissance deparamo-nos com um momento à Almodôvar num "show" de canto, dança e confissões, com as seis mulheres ébrias em final de noite num Karaoke-Bar de lésbicas.

Outra semelhança não intencional: a presença do Próximo Oriente como elemento catalizador/destabilizador. No primeiro espectáculo, Constantinopla (Istambul) era o local onde Sara Silvestre descobria o lado negro do seu marido. No segundo caso, o Iraque é o Inferno aberto na Terra onde morreu o filho de Violeta. Sempre o mesmo questionar sobre o Outro, sobre o Outro Lado, o Próximo Oriente dentro de nós.

Em impossível resumo, Renaissance é o regresso à primeira estrutura dramática; é o regresso à fonte de inspiração primeira; é regresso ao universo íntimo das mulheres de que me sinto privilegiado confessor; é o regresso à costela cristã, à mesma crença no arrependimento e transcendência das personagens, do Teatro, da Vida. Mas, neste mergulho interior, não me detenho somente nas seis personagens femininas. Pela primeira vez em obra minha surge o elemento estranho, destabilizador: a guerra. Pela primeira vez, as primeiras reflexões sobre guerra e terrorismo, estado clínico da Nação e estado clínico da Humanidade. Tudo a partir da morte do filho de Violeta no Iraque. Tudo a partir da anunciada morte de D. Sebastião em Alcácer-Quibir. Sublinho: não são afirmações, não são teses, são apenas as primeiras reflexões sobre as primeiras impressões da guerra sob a minha pele. Um primeiro questionar sobre o sentido da defesa da(s) verdade(s) como fruto de morte e não da união. Enfim, faço minhas as últimas palavras de Violeta: “É já manhã. Um brinde aos quartos escuros... e à porta que os abre à claridade! Renasceremos. Renasceremos sempre.”

Nuno Vicente
15/01/2007
Albarraque
 
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