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Henrique IV, o Rei Louco, DRESS-UP
Acerca de "Henrique IV"
Análise de Ricardo Ventura
Luigi Pirandello: Prémio Nobel da Literatura, 1934

Os Trajes da Lucidez

Perto de celebrar o seu 13º aniversário, a Utopia Teatro apresenta uma brilhante adaptação de um texto de Luigi Pirandello: Henrique IV, o Rei Louco, DRESS-UP, uma tragicomédia em que se analisam as instáveis fronteiras da lucidez e da loucura, em cena na Casa de Teatro de Sintra, até 1 de Março.

Diversas razões me obrigam a começar pelo fim: Henrique IV, o Rei Louco, DRESS-UP é, a todos os níveis, um espectáculo notável e imperdível.

A proposta de adaptar um texto de Luigi Pirandello não deverá subentender um plano ambicioso: ela apresenta-se na sequência lógica de um processo de trabalho e de aprendizagem que a Utopia Teatro partilha há quase treze anos com o público sintrense. A qualidade e a generosidade dos espectáculos apresentados, a originalidade dos desafios lançados ao público e aos actores já deverá ter dissipado das mentes sintrenses e portuguesas a imagem de um grupo de teatro amador, ao qual se dispensam esperanças e atenções bondosas. Com efeito, há já alguns anos que a Utopia Teatro merece, do público e das instituições, uma atenção e uma estima próprias. Os argumentos abundam: os textos originais e a encenação de Nuno Vicente, que são sempre verdadeiramente notáveis e desafiantes, um trabalho assinalável na formação de actores, uma diligente produção de Rui Braz e uma competente equipa técnica, aliados a um imenso amor pelo teatro e pelo público, têm sido a receita fundamental de um notável rol de espectáculos.


Por tudo isto, a Utopia Teatro deve ser vista não apenas como um grupo de teatro profissional que merece o nosso apoio, mas sim como um agente cultural e social de grande relevância, cujos projectos devem ser defendidos tanto pelo público como pelas instituições municipais e nacionais.

Curiosamente, em alguns espectáculos, a Utopia Teatro parece até, em certa medida, ironizar e comprazer-se com a imagem de inexperiência e de amadorismo que alguns possam ainda ter do grupo. De facto, nos seus textos, que mereceriam, sem dúvida, uma cuidada edição, Nuno Vicente procura, constantemente e de diferentes formas, surpreender os actores e o público e convidá‑los a um ritual em que as fronteiras entre a representação e a realidade se tornam mais permeáveis e sinceras. O intuito patente de exorcização de preconceitos e posturas do quotidiano impõe uma proliferação e um dinamismo por vezes caótico das máscaras e uma quebra de códigos pré-estabelecidos para a presença em palco. Assim, a Utopia Teatro tem vindo a desenvolver uma abordagem ao teatro e uma forma de o praticar muito particulares. De certa forma, desabituei-me de pensar nos espectáculos da Utopia Teatro como exercícios de rigor dramatúrgico, valorizando-os sobretudo pela intensidade estética e por uma forte componente catártica. Ora, Henrique IV, o Rei Louco, DRESS-UP é um espectáculo que contraria, excelentemente, esta minha visão.

Nesta adaptação do famoso Henrique IV de Luigi Pirandello, Nuno Vicente manteve os elementos principais da narrativa original: após ter caído de um cavalo e batido com a nuca, um aristocrata julga ser Henrique IV, imperador da Alemanha medieval; a família e os criados alimentam uma farsa em que simulam a vida de corte do século XI, para acalmar a ira do paciente; mas, quando a sua esposa e Belcredi contratam o doutor Genoni, procurando uma cura para o delírio, a “loucura” do paciente revela-se mais lúcida e mais complexa do que o desejado.

Porém, o encenador adiciona ao texto original o conceito “DRESS UP”, que, por demais evidente na cenografia – cabides com centenas de peças de vestuário –, estrutura também os movimentos e a presença dos actores em palco. Fornecendo uma boa base cénica e dramatúrgica, as peças de roupa e o seu manejo contrastam, propositadamente, com a severidade do assunto e dos acontecimentos representados. Como o encenador assinalou: «Por mais que os palavras pareçam empolar toda uma pompa de retórica metafísica, todas as personagens devem morder a língua e atraiçoar o próprio sentido do seu discurso com expressões faciais, sequências de gestos e comportamentos dos mais banais aos mais desconexos, associados a um compulsivo DRESS UP, de postiço em postiço, onde cada traje substitui a multiplicidade de máscaras e espelhos quebrados do teatro de Pirandello». Torna-se assim ainda mais patente o dinamismo e a fugacidade das máscaras, mas também – o que é determinante – a intensidade com que cada personagem as assume.

Em Henrique IV, o Rei Louco, DRESS-UP, esta abordagem dramatúrgica, tão típica da Utopia Teatro, assume, todavia, um rigor notável. Na altura em que assisti à peça (segunda apresentação), o jogo de constante contradição e compensação entre a tragédia e o grotesco encontrava-se muito bem conseguido no gesto, expressão e movimento dos actores, formando uma composição que, já muito rica e impressiva, possui ainda uma boa margem de progressão.

Para este efeito, o espectáculo conta com o excelente desempenho de um grupo de actores, na sua maior parte, muito experientes: Ana Bernardino, Filipe Araújo, Francisco Gomes, Paulo Cintrão, Paulo Martins, Raquel Ferreira, Ricardo Soares, Rute Lizardo; destaco, com merecida vénia, o desempenho de Paulo Campos dos Reis enquanto Henrique IV. Formando um conjunto muito coeso e coerente, a rapidez dos tempos e a intensidade da interpretação parece nunca prejudicar o rigor dramatúrgico.


Prepare-se, portanto, o leitor para uma peça intensa, rápida (apesar de ter mais de hora e meia de duração), onde o cómico e o aterrador convivem com grande significado.

Destaco ainda a música original de Bruno Béu como uma valência fundamental do espectáculo, à semelhança do que aconteceu, exemplarmente, em Falésia.

Um desenho de luz sóbrio (Rui Braz e André Rabaça) acompanha competentemente toda a peça, marcando os tempos e cedendo o protagonismo aos actores e ao figurino.

Por todas estas razões e mais algumas, comecei pelo fim e reitero que Henrique IV, o Rei Louco, DRESS-UP é um excelente espectáculo de teatro, que demonstra a maturidade da Utopia Teatro e que, na minha opinião, só peca por estar pouco tempo em cena.

A não perder, até 1 de Março, de quinta-feira a domingo, pelas 21h30, na Casa de Teatro de Sintra.

Ricardo Ventura
(publicado no Jornal de Sintra de 20-02-09)


 
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