| Despedida de Solteiro |
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[Dezembro 2010 - Maio 2011]
Um quarto de motel. Uma stripper. Um fim de noite surpreendente... Eles são quatro motoristas de transportes públicos. Dois são irmãos: o mais novo, ainda a recuperar de um “estranho colapso nervoso”, vai casar-se para a semana; o mais velho decidiu organizar uma despedida de solteiro para concretizar a sua mais delirante fantasia sexual. Cada um convida o seu melhor amigo. Todos colegas de profissão. Um deles conhece a moça certa; o outro, o espaço certo. Quatro homens num quarto escuro à espera. E ainda o recepcionista da obscura pensão, intermediário voyeur entre o serviço e os clientes. Mas um deles esconde ainda um último segredo para a ocasião. Só falta chegar a “cereja no topo do bolo”: o que acontecerá quando aparecer "Lou Lou"?
Ficha Técnica e Artística Texto e encenação: Nuno Vicente Cenografia e Guarda-Roupa: Joana Mendão (com André Sobral) Montagem: Nuno Teixeira Fotografia: Francisco Gomes, Paulo Martins Interpretação: André Sobral, FIiipe Araújo, João Mais, Paulo Campos dos Reis, Paulo Martins, Ricardo Soares e... "Lou Lou" Produção: Rui Braz Agradecimentos: Flávio Tomé Media Partners: Jornal de Sintra, Jornal da Região, Correio de Sintra, Cidade Viva, Actual Sintra Apoio: Câmara Municipal de Sintra, Café-Bar 2 ao Quadrado, Chão de Oliva - Centro de Difusão Cultural em Sintra Os Ensaios:
Fotos de Cena:
Sobre "Despedida de Solteiro" Presidem à construção do texto dramático "Despedida de Solteiro" a investigação e a identificação das linhas de força comuns à obra de Tennessee Williams, obra essa que se estende ao longo de um arco temporal de mais de quatro décadas. Apesar do entusiasmo que a obra de Tennessee Williams ainda despoleta hoje, sobretudo no mundo anglo-saxónico, em Portugal contam-se pelos dedos de uma mão as obras traduzidas. O mesmo vale para o estudo dessa obra: abundam as análises em língua inglesa, mas em Portugal este autor essencial da dramaturgia da segunda metade do séc. XX permanece na sombra. Colocaram-se então duas questões principais, antecedendo a escrita deste "texto-experiência-homenagem":
Esta indagação conduziu, portanto, à segunda questão, que acabou por se constituir como mote para a escrita:
Estava aberto o caminho. Como um actor que veste a pele da personagem, assim eu também, vestido e investido do papel de dramaturgo, apostei na criação dessa mesma especulação. Sexo e violência caracterizam, em traço bastante largo, o espectro do universo de Tennessee Williams. Contudo, o autor abordou essas questões sobretudo nas décadas de 40 e 50, no seio de uma sociedade americana ainda a braços com a segregação racial e onde a homossexualidade era considerada uma doença; num tempo em que ainda se praticavam lobotomias, num período em que se procurava conservar a todo o custo o brilhante modelo do "American Way of Life", tal como modulado após a II Guerra Mundial, com ênfase na moral e bons costumes. Hollywood, outrora bastião de maiores liberdades, não escapou à Censura e à tristemente célebre Lista Negra da “caça às bruxas”. Tennessee Williams, apesar de se movimentar em círculos todavia mais liberais, não obstou a este clima opressor, vendo-se mesmo obrigado a reescrever as suas peças no momento da sua transposição para o cinema, suavizando-lhes muito do seu sentido mais perturbador, particularmente naquilo que é, efectivamente, mais precioso e interessante em Tennessee Williams: a tensão da libido que se condensa em "desejo". Hoje parecemos habitar o outro extremo, o outro lado do espelho. A nossa sociedade hiperbolizou o sexo – e no processo, banalizou-o. Como chocar hoje o público? Talvez seja possível fazê-lo apenas com uma cena hardcore… e mesmo assim… Mas neste "pacato" recanto ocidental, nesta serena Sintra, a aparente abertura de mentalidades não será apenas uma conveniência de moda que habita à superfície de um qualquer convívio mais formal? Até que ponto, abaixo da superfície, não está ainda gravada uma matriz moralista, machista, plena de brutalidade? Uma sociedade que fala abertamente sobre sexo – mas que não sabe lidar do mesmo modo com a diversidade da sexualidade? Sendo assim, não nos estamos a aproximar do universo que Tennessee Williams explorou? Onde residem as tenções mais obscuras e profundas da condição humana? Surgiram as personagens. Quatro homens aparentemente “normais”, todos eles motoristas de transportes públicos, nos percursos de Sintra para as redondezas saloias. A mesma farda para todos, os mesmos comportamentos para todos: bastiões de algo que não pode ter mudado assim tanto ao longo do tempo. À superfície, banais personagens. Escutem-se-lhes as conversas entre eles, entre cigarros e mensagens, fotos e vídeos trocados pelos telemóveis, entre as pausas das carreiras, quando se encontram nos cafés, encostados aos muros da estação. Sexo e violência. Todos compõem a sua melhor personagem. Variações da mesma farda. Surgiu a trama. Onde e em que circunstâncias poderiam estes homens "despir as suas fardas"? Como transitar da camaradagem para uma intimidade sem "postiços"? Uma despedida de solteiro. Uma conveniente equação, pois à luz da sua mentalidade o casamento nunca impede todos os outros encontros sexuais: é só mais uma etapa formal do percurso que se espera de qualquer homem. Assim, o que poderia revelar algo mais destes homens? Um encontro inesperado que "desorientasse" as suas convicções. Surge Lou Lou, a personagem-mártir-bomba-suicida. Uma personagem a colidir com outra dimensão. Marginal, obrigada à prostituição, entra no quarto da pensão onde quatro homens a esperam para uma "despedida de solteiro", mas um deles "esqueceu-se" de esclarecer os outros sobre as peculiaridades de Lou Lou. Um "pequeno" esquecimento? Ou um "trágico" esquecimento? Que ritual inesperado propõe esta "despedida de solteiro", este modelo teatral roubado do mestre americano? Cabe ao espectador abraçar este dilema que se põe "do outro lado do espelho". Possa o espectador sentar-se na cadeira ao lado da cadeira do fantasma de Tennessee Williams. Nuno Vicente |
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