10 anos de Utopia Criar PDF Versão para impressão Enviar por e-mail
Índice
10 anos de Utopia
Dramaturgia original
Espaço teatral
A Utopia Teatro é de Sintra
Ao encontro do público
2. A dramaturgia original é, desde sempre, a maior aposta da Utopia Teatro. Enquanto companhia radicada em Sintra, a Utopia Teatro preocupa-se em lembrar a história e a cultura da mais famosa Vila do país nos textos originais que leva à cena. Por outro lado, enquanto companhia formada por jovens e que trabalha para levar ao teatro e assim formar um público jovem, a Utopia Teatro procura produzir e apresentar ao seu público maioritariamente urbano espectáculos que reflictam as inquietações e preocupações – e também colaborações, soluções e propostas – dos jovens do século XXI.

A Utopia Teatro abraçou o trabalho dramatúrgico de diversos jovens autores, como sejam Jacinto Anica (O Elevador e outras Estórias com Dor, Correspondências, Algum Ruído) ou Rui Braz (Sangue Livre e Fogo!). Contudo, é em Nuno Vicente, membro fundador, director artístico e Presidente da Associação Juvenil Utopia Teatro, que a companhia tem encontrado o seu principal dinamizador, desde a primeira hora: o primeiro espectáculo levado à cena pela companhia, em 1996, intitulado O Dia da Iguana (Melhor Dramaturgia, Melhor Actriz e Melhor Actor no Festival de Teatro de Sintra desse ano), resulta da paixão de Nuno Vicente pela obra de Tenesse Williams, que assim lhe prestou homenagem neste primeiro trabalho.

A filiação tenesseniana está de resto bem presente na obra de Nuno Vicente, nomeadamente no que concerne à estrutura dramática dos textos e à forma como as personagens vão sendo caracterizadas: assim é em Fin de Siècle (Melhor Dramaturgia, Melhor Texto Original e Melhor Actriz no X Festival de Teatro de Sintra), Après un Siècle (inédito) e O Pequeno Anjo de Rosto Mutilado. Mais recentemente, Falésia (2002), Ilha dos Anjos (2004) e Casa em Ruínas (inédito), afastam-se desse modelo, indicando que o autor vai atingindo a sua maturidade e, com ela, a natural imposição de um estilo próprio bem marcado.

O trabalho de Nuno Vicente sobre a herança cultural sintrense não pode, igualmente, ser desprezado. Neste capítulo destacam-se Cynthia – a Labirintica, espectáculo infantil baseado em lendas sintrenses; e O Homem que Perdeu a Sombra, espectáculo infanto-juvenil interactivo que se desenvolvia à maneira de um jogo da Glória, em que a obra do célebre Hans Christian Andersen, que desfrutou também do ambiente mágico de Sintra, servia de base a uma grande aventura teatral. Para os mais graúdos, Nuno Vicente escreveria Um Amor Camiliano, texto dramático respeitando o peculiar pathos camiliano; Singular Amor, brilhante interpretação do conto de Eça de Queiroz intitulado Singularidades de uma Rapariga Loira; CAMÉLIAS, comédia de enganos, adaptação do clássico A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas, Filho. Este último, apresentado ao público no Palácio Valenças, em Sintra, constitui, para além de uma experiência dramatúrgica invulgar, uma experiência teatral única, ao tratar-se de um texto concebido desde a origem para um teatro de atmosfera, em que o público é plenamente integrado na acção, sendo chamado a intervir e a interagir com os personagens ao longo do decorrer do espectáculo. Água Moura (2003), viagem pelas memórias mouriscas de Sintra e O Espírito da Lua (estreia marcada para 2006) completam – até à data – o trabalho do dramaturgo sobre o património cultural de Sintra.

A terminar, refira-se o trabalho deste jovem autor e encenador em Um Esgar, performance teatral baseada na poesia de Georg Heym e galardoada com os prémios para Melhor Teatro de Pesquisa e Melhor Música Original no IX Festival de Teatro de Sintra; e em O Grotesco Jardim Dantesco, a maior e mais complexa incursão da Utopia Teatro pelo teatro de rua – a par com Água Moura –, numa adaptação da imortal Divina Comédia de Dante que reuniu cerca de três dezenas de actores e técnicos.

Este contínuo trabalho de desenvolvimento de uma dramaturgia original não passou despercebido aos mais atentos:

«Um dos grandes problemas para o menor desenvolvimento da nossa dramaturgia tem sido o da não inserção dos dramaturgos na actividade teatral. Destaque-se assim a prática de um conjunto alargado de autores, de diferentes gerações, com grande proximidade ao processo de criação teatral, como Luís Assis, Francisco Pestana, Abel Neves (...).
Ou a forma como se tem desenvolvido uma grande cumplicidade entre determinados grupos e dramaturgos. Cite-se o Teatro Bruto, do Porto, com Vânia Cosme; Víboras, com José Luís Peixoto; Utopia Teatro, com Rui Braz e Nuno Vicente; Teatro Não, com Miguel Clara Vasconcelos; Artistas Unidos, com José Vieira Mendes e Jacinto Lucas Pires (...).»

Joaquim Paulo Nogueira, Jornal de Letras de 26 de Junho de 2002

A riqueza do teatro e a sua especificidade resultam do facto de se realizar ao vivo e em presença física de actores e espectadores. Cada espectáculo é um evento único, singular e irrepetível, carácter que dota cada um destes momento teatrais de um valor ritual inestimável no seio de uma sociedade dessacralizada como a nossa.

Se os homens e mulheres de teatro encaram com um sorriso a efemeridade do seu trabalho, na certeza de que um novo espectáculo terá lugar brevemente, tanto se perderia irremediavelmente se não fossem fixados, impressos e divulgados os textos de tantos desses trabalhos (e tanto se perde já assim, pois as palavras não são se não apenas um dos “tijolos” com que se constrói o edifício do teatro). Daqui a importância da publicação – que se espera para breve – de um conjunto das mais significativas obras originais de Nuno Vicente, pois para além de obras dramatúrgicas de grande valor, constituem também um documento histórico a) da evolução do trabalho do autor, b) do desenvolvimento da Utopia Teatro, c) do papel fundamental das companhias de teatro independentes ou marginais no contínuo desenvolvimento da arte do teatro.


 
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